O Censo Demográfico de 2022 identificou a existência de 295 línguas indígenas faladas ou utilizadas nos domicílios por pessoas indígenas com dois anos ou mais no Brasil. O número representa um aumento em relação a 2010, quando haviam sido registradas 274 línguas, segundo dados divulgados pelo IBGE.
Entre as línguas com maior número de falantes, a Tikúna lidera o ranking, com 51.978 pessoas, seguida por Guarani Kaiowá (38.658), Guajajara (29.212) e Kaingang (27.482).
Dentro das Terras Indígenas, o número absoluto de falantes de línguas indígenas entre pessoas de cinco anos ou mais cresceu de forma significativa entre 2010 e 2022, passando de 293.853 para 433.980. No entanto, proporcionalmente, houve redução: em 2010, 37,35% da população indígena nessas áreas falava línguas indígenas, percentual que caiu para 28,51% em 2022.
De acordo com o pesquisador Fernando Damasco, o avanço do português nas Terras Indígenas é um dos principais destaques do levantamento. Ele aponta que a necessidade crescente do uso do português para estudo, trabalho e deslocamentos para áreas urbanas, além do avanço da urbanização e da ausência de políticas educacionais específicas para o ensino em línguas indígenas, contribui para esse cenário. Fatores históricos, como o racismo e a discriminação, também tiveram impacto ao longo do tempo, levando muitos povos indígenas a abandonar o uso de suas línguas em espaços públicos.
Apesar disso, o Censo revela sinais positivos. Segundo Damasco, o crescimento no número de falantes pode estar relacionado tanto a fatores demográficos quanto ao fortalecimento das línguas indígenas por meio de ações de revitalização e da ampliação da educação bilíngue.
O levantamento permitiu que cada pessoa declarasse até três línguas indígenas, o que evidenciou regiões com forte presença do multilinguismo, como o Alto Rio Negro, o norte do Pará e o Parque Indígena do Xingu. A análise por faixa etária indica que os falantes exclusivos de línguas indígenas são majoritariamente jovens, o que sugere potencial de continuidade dessas línguas.
Os dados também mostram que a transição do uso exclusivo da língua indígena para o uso combinado com o português ocorre principalmente a partir da juventude. Entre os homens, essa mudança tende a acontecer a partir dos 15 anos, enquanto entre as mulheres ocorre, em geral, entre os 20 e 24 anos, período associado à entrada no ensino formal e ao mercado de trabalho.
Outro ponto destacado é o impacto da língua no acesso à cidadania. A falta de oficialização das línguas indígenas dificulta o acesso a serviços públicos, como educação e atendimento em órgãos municipais, devido à ausência de intérpretes, o que reforça a exclusão social dessas populações.







