Bené Nascimento – uma personalidade forte que caminha por Porto Velho como quem acende pequenas fogueiras de luz em cada esquina. Não são fogueiras de festa — são fogueiras de resistência, dessas que aquecem mãos cansadas e iluminam caminhos que insistem em permanecer escuros.
Ela sabe que a cidade pulsa em camadas: a das mulheres que cantam, a das que lutam, a das que silenciam porque ainda não encontraram palco. E por isso ela ergue palcos. Ergue rodas de conversa. Ergue feiras onde o artesanato vira manifesto e a música vira denúncia.
O nome de Bené Nascimento é sinônimo de articulação e resistência. Liderança comunitária de longa data, Bené consolidou sua trajetória na intersecção entre a defesa dos direitos humanos e a promoção da identidade amazônica. Sua atuação não se limita ao discurso; ela ocupa as cadeiras de decisão e os palcos da cultura popular, transformando a reivindicação social em política pública e arte.
Dentro do protagonismo institucional, Bené Nascimento está no coração das decisões. Uma lider que compreende que a mudança social exige presença nesses espaços. Como integrante do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Mulher (CMDDM) , atuou como Conselheira no período 2008-2012 e como Presidente do Conselho Municipal de Assistência Social no período de 2006 a 2012. Sua participação nos referidos conselhos garantiu que a voz da sociedade civil chegasse ao poder público, especialmente no combate à violência doméstica e na busca por autonomia econômica para as mulheres. Bené é o elo que traduz as dores das comunidades periféricas em diretrizes governamentais.
Além disso, sua militância e sororidade ,a base de sua força, reside no Fórum Popular de Mulheres (FPM), um movimento com mais de três décadas de história em Rondônia. Através do Fórum, Bené organiza debates, oficinas e mobilizações que mantêm viva a chama do feminismo comunitário.Além da pauta de gênero, sua militância é reconhecida pela interseccionalidade, abraçando a defesa das minorias e grupos em situação de vulnerabilidade, combatendo desigualdades estruturais que afetam a população de Porto Velho.
Podemos dizer que o seu trabalho à frente do Fórum de Mulheres Populares de Rondônia é uma das colunas mais resistentes na defesa da vida das mulheres no Norte do país,principalmente no que tange ao feminicídio no Estado. Sua atuação se destaca por transformar o luto e a indignação em ferramentas políticas de enfrentamento direto ao feminicídio.
Diferente de abordagens puramente teóricas, a militância de Bené está profundamente enraizada na realidade amazônica. Ela compreende que, em Rondônia, o feminicídio não ocorre no vácuo, mas está entrelaçado a questões de vulnerabilidade social, e a uma cultura de silenciamento.
O Fórum atua como um megafone para mulheres tanto das regiões centrais quanto das periferias urbanas, comunidades ribeirinhas e rurais, onde a rede de proteção estatal muitas vezes chega com atraso ou de forma insuficiente. É uma figura central na articulação entre os movimentos sociais e os órgãos de segurança, exigindo não apenas a punição dos agressores, mas a implementação de políticas públicas preventivas que retirem a mulher do ciclo de violência antes do desfecho fatal.
Sob sua liderança, o Fórum de Mulheres Populares tem pautado o debate público em Porto Velho e no interior do Estado, denunciando os altos índices de violência doméstica. A luta de Bené Nascimento é pedagógica: ela trabalha para que a sociedade rondoniense reconheça os sinais do abuso e entenda que o feminicídio é um crime evitável, fruto de uma estrutura desigual que precisa ser desmantelada.
“Sua trajetória é marcada por uma coragem inabalável, ocupando espaços de poder e as ruas para garantir que nenhuma morte seja esquecida e que o direito à vida seja a prioridade máxima em qualquer agenda governamental.”
O trabalho de Bené Nascimento é, acima de tudo, um convite à solidariedade coletiva, provando que a organização popular é a barreira mais forte contra a barbárie do feminicídio na Amazônia.
Arte como Ferramenta de Luta: O Legado do “Canta Mulher”
Uma faceta visível e emocionante do trabalho de Bené Nascimento também está centrada na sua atuação na cultura. Ela é uma das principais articuladoras do projeto Canta Mulher, movimento que há 33 anos ocupa os palcos para dar visibilidade às vozes femininas.Recentemente reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado de Rondônia, o Canta Mulher sob a gestão de lideranças como Bené, vai além do entretenimento:
Podemos destacar aqui a resistência Cultural, como o combate à invisibilidade de artistas locais em uma cena muitas vezes dominada por homens. Os shows temáticos, tais como “Maria Solidária” (homenagem a Milton Nascimento em 2025) e “Todas as Mulheres do Mundo” (tributo a Rita Lee em 2024) que conectam a musicalidade brasileira à alma regional.
O Canta Mulher se tornou uma plataforma de talentos, uma vez que o evento serve de vitrine para artistas consagradas como Izabela Lima , Marfiza França , Gabriê, entre tantas outras como Anayolê Êba, Grupo vocal Cantadô, Maísa Luz, Marcela Bomfim, Patrícia Morais,Ana Dantas , Sandra Braids e As Pastoras que passaram por esse palco sagrado. E é ao mesmo tempo um espaço para lançar novos nomes,como ocorrido na última edição em 2026 – evento que comemorou os 34 anos de vozes, memória e luta.
A atuação de Bené Nascimento cria um ciclo virtuoso para a cidade. Ao apoiar eventos como a Feira Mulheres do Sol, ela une o artesanato, a economia solidária e a conscientização política. Seu trabalho é um exemplo de como a Lei Aldir Blanc e a Lei Paulo Gustavo podem ser aplicadas de forma a fortalecer não apenas a estética, mas a cidadania.
ou seja,
Bené Nascimento é uma articuladora de mundos. Ela transita com a mesma maestria entre as reuniões técnicas da SEMASF (Secretaria Municipal de Assistência Social e Família) e a organização de grandes festivais populares. Para Porto Velho, sua liderança representa a esperança de uma sociedade mais justa, onde a cultura é o principal veículo para a conquista de direitos.
“O Canta Mulher não é apenas um festival; é um espaço de resistência cultural e formação de público, articulado por lideranças que entendem que o palco também é um lugar de fala política.”
Logo,
Bené Nascimento é uma mulher que não precisa de holofotes para marcar sua presença no cenário de defesa dos mais fracos e das mulheres. Bené prefere o bastidor onde se decide o futuro, o corredor onde se acolhe uma companheira, a praça onde se monta um palco improvisado.
Prefere o gesto que ninguém vê, mas que muda tudo. Porque sua luta não é só por mulheres — é por todas as minorias que carregam o peso do mundo nas costas.
É por quem precisa de espaço, de voz, de chão.
É por quem ainda não sabe que pode cantar.
Bené é dessas presenças que não passam: permanecem…
Permanecem na memória dos eventos que ajudou a erguer,
na coragem das artistas que subiram ao palco pela primeira vez,
na política que se transforma devagar, mas se transforma,
na cidade que aprende, aos poucos, a ser mais justa.
Bené é verbo.
É movimento. É nascente — como seu nome anuncia
Fonte: LiterArte – Amazônia






