Aparição de passaporte de Eliza Samudio em Portugal reacende debates sobre a morte da modelo

Pai do filho dela, o então goleiro do Flamengo, Bruno, foi condenado pelo crime

O passaporte de Eliza Samudio apareceu em Portugal e abriu mais um capítulo em uma história repleta de contradições. O surgimento do documento trouxe novamente à tona um caso marcado por violência e crueldade. Eliza Samudio foi assassinada em 2010, e o pai do filho dela, o então goleiro do Flamengo, Bruno, foi condenado pelo crime.

“Minha filha está morta. E essa é uma frase que nenhuma mãe deveria repetir todos os dias para si mesma. Ela carrega uma saudade que aperta o peito, que sufoca, que nunca descansa.” A voz que lê essa frase é de uma atriz, mas o texto foi escrito pela mãe de Eliza Samudio e publicado em uma rede social. É o desabafo de quem nunca pôde enterrar o corpo da filha, assassinada cruelmente por homens que torturaram e mataram a jovem, entre eles o pai do filho da modelo. “Cada exposição desnecessária reabre a ferida, aumenta o vazio e transforma a saudade em revolta. Minha filha tinha uma história, sonhos, um sorriso.”

O caso Eliza Samudio volta a mexer com o Brasil e com o mundo. Um homem que não mostra o rosto por medo vive em Portugal há sete anos. Ele aluga um quarto por 500 euros na casa onde diz ter encontrado um passaporte vencido de Eliza Samudio. Segundo ele, o documento estava entre livros de uma estante antiga, no canto da sala. Ele afirma que, ao pegar uma roupa no estendal, viu alguns livros, foi olhar por curiosidade e encontrou o passaporte em cima de um deles. Disse que, ao abrir o documento e ver a foto, soube imediatamente de quem se tratava, porque já conhecia o caso.

A história divulgada está cheia de lacunas, coincidências e pontos que não se encaixam. O homem levanta questionamentos sobre o estado de conservação do passaporte, que teria quase 18 anos e estaria mais preservado do que documentos pessoais guardados por ele na gaveta. Antes de entregar o passaporte às autoridades, ele decidiu chamar a imprensa para contar o que havia acontecido.

Segundo ele, tentou primeiro contato com veículos de Portugal, mas não conseguiu, e afirma que sua intenção sempre foi entregar o documento à polícia. Ele diz que, se tivesse entregado diretamente às autoridades portuguesas, ninguém no Brasil saberia da história. Por medo de represálias, afirma não querer mostrar o rosto e diz que, mesmo sem aparecer, já está sendo duramente criticado.

As críticas aumentaram depois que ele revelou a história e levantou a hipótese de Eliza estar viva. Para a família, esse tipo de especulação é uma covardia, porque reabre uma ferida que nunca cicatrizou. O caso teve grande repercussão, e o brasileiro acabou entregando o passaporte no consulado do Brasil em Lisboa, sem informar nome ou endereço. Segundo ele, a entrega já estava previamente agendada.

Em nota, o Itamaraty informou que o documento entregue ao consulado brasileiro em Lisboa deve seguir para o Brasil e ficar à disposição da família. Nas fotos obtidas pela reportagem, a data de emissão do passaporte é 9 de maio de 2006, com validade até 8 de maio de 2011. O único carimbo registrado é o de entrada em Portugal, em 1º de maio de 2007.

De acordo com as autoridades brasileiras, Eliza Samudio deixou Portugal com uma autorização de retorno. Em casos de perda de passaporte no exterior, o brasileiro precisa solicitar um documento de retorno no consulado, apresentando identificação, foto, passagem aérea e, em muitos casos, boletim de ocorrência da polícia local, embora as exigências possam variar de país para país.

Dona Sônia Moura, mãe de Eliza, que não quis gravar entrevista, encerrou assim o texto que publicou: “Essa é uma história marcada por muitas lacunas, e elas precisarão ser esclarecidas, porque minha filha merece respeito, verdade e justiça.”

O apartamento onde o passaporte foi encontrado fica no município de Cascais, uma região badalada, de praias, a cerca de quarenta quilômetros de Lisboa, procurada por muitos brasileiros que vivem em Portugal. Mas por que o passaporte de Eliza Samudio estava nesse local? Surgem questionamentos sobre a possibilidade de tráfico humano ou de um suposto convite de trabalho no exterior, hipóteses levantadas por especialistas, embora nada tenha sido comprovado.

O próprio homem que encontrou o documento admite que chegou a se perguntar se Eliza poderia estar viva, mas afirma que o principal questionamento sempre foi como o passaporte foi parar em Portugal.

O antigo passaporte de Eliza é mais uma peça de um quebra-cabeças sem fim. Portugal aparece como uma parte importante dessa história. Antes de morrer, Eliza deu uma entrevista em que falou sobre o jogador Cristiano Ronaldo, com quem teria tido um encontro após uma partida do Manchester United, clube em que o atleta jogava na época. Ela disse que ele era simpático, humilde e diferente da imagem que muitos tinham dele, e contou que mantinham contato principalmente pela internet.

A advogada da família e madrinha de Bruninho quer esclarecimentos da Polícia Federal sobre as saídas de Eliza do país. Há reportagens que indicam que ela teria voltado a Portugal em 2008 e 2009, inclusive para assistir a partidas de Cristiano Ronaldo, o que só seria possível com a emissão de uma segunda via do passaporte. Em 20 de maio de 2009, Eliza conheceu Bruno Fernandes de Souza em um churrasco. Ela relata que o encontro terminou em violência e abuso.

Naquele período, o goleiro estava no auge da carreira no Flamengo, considerado um dos melhores do país. Eliza contou que, em uma viagem, revelou a gravidez a Bruno, que inicialmente disse que ajudaria, mas depois mudou de comportamento. Em outubro de 2009, a história tomou outro rumo quando Eliza registrou um boletim de ocorrência denunciando o jogador. Ela afirmou que foi dopada, ameaçada e pressionada a abortar, sob ameaça de morte contra ela e sua família.

Com medo, Eliza deixou o Rio de Janeiro e foi para São Paulo. Em fevereiro, nasceu o filho, Bruno Samudio de Souza, o Bruninho. A modelo entrou então com uma ação de reconhecimento de paternidade e pensão alimentícia. Segundo Bruno, a relação entre os dois se tornou conflituosa, com acusações e ameaças mútuas.

Em 2010, Eliza Samudio foi assassinada. Três anos depois, Bruno foi condenado por homicídio triplamente qualificado, sequestro e ocultação de cadáver, recebendo pena de 22 anos de prisão, depois reduzida para 20 anos e 9 meses. Segundo a denúncia, ele não queria pagar pensão ao filho e teria montado um plano para matar Eliza com a ajuda do amigo Luiz Henrique Romão, o Macarrão, e de Marcos Aparecido dos Santos, conhecido como Bola, apontado como o executor. Ambos também foram condenados.

O corpo de Eliza nunca foi encontrado. As principais provas do processo foram manchas de sangue encontradas em um carro do goleiro e objetos pessoais dela e do filho localizados no sítio de Bruno. Todos os réus sempre negaram o crime. Em 28 de janeiro de 2013, Eliza Samudio recebeu uma certidão de óbito, que aponta como causa da morte asfixia mecânica com emprego de violência. A mãe de Eliza nunca teve a possibilidade de sepultar a filha ou prestar uma última homenagem.

Agora, a família quer respostas sobre o passaporte encontrado em Portugal e por que ele só apareceu tantos anos depois.

Fonte: Domingo Espetacular | R7

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