Polilaminina: a pesquisa brasileira que pode revolucionar o tratamento da lesão medular

A substância tem potencial para auxiliar na recuperação de lesões medulares graves

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro, uma pesquisa conduzida pela cientista Tatiana Coelho de Sampaio vem colocando o Brasil no centro de uma das áreas mais desafiadoras da medicina: a regeneração da medula espinhal. O estudo investiga o uso da polilaminina, uma substância experimental desenvolvida em laboratório com potencial para auxiliar na recuperação de lesões medulares graves, incluindo casos de tetraplegia.

Trata-se de uma linha de pesquisa que pode representar um divisor de águas no tratamento de paralisias — uma área que, por décadas, foi considerada praticamente irreversível pela ciência.

A importância da pesquisa

Lesões na medula espinhal interrompem a comunicação entre o cérebro e o restante do corpo. No centro desse processo estão os axônios, extensões dos neurônios que funcionam como verdadeiros “cabos elétricos”, conduzindo impulsos nervosos responsáveis pelos movimentos e funções vitais.

Quando ocorre uma lesão medular, muitos desses axônios são rompidos. O resultado pode ser a perda parcial ou total dos movimentos. Historicamente, a regeneração dessas conexões sempre foi um dos maiores desafios da neurociência.

A polilaminina atua justamente nesse ponto crítico: ela cria um ambiente favorável para que os axônios cresçam novamente e possam restabelecer conexões interrompidas. Se confirmada sua eficácia e segurança, a descoberta poderá redefinir protocolos de tratamento e ampliar as perspectivas de reabilitação de milhares de pacientes.

Como a polilaminina foi desenvolvida

A base da descoberta está na laminina, proteína natural do corpo humano presente na matriz extracelular e fundamental para a organização e regeneração dos tecidos nervosos. Desde os anos 1990, Tatiana Sampaio lidera estudos sobre o papel dessa proteína na modulação celular e no crescimento neuronal.

Após anos de pesquisas em laboratório, sua equipe identificou o papel essencial da laminina no direcionamento e crescimento de neurônios. A partir desse conhecimento, foi desenvolvida a polilaminina — uma versão sintética potencializada, criada para ampliar a capacidade de estimular a reconstrução de conexões nervosas danificadas.

A substância funciona como um “guia biológico”, promovendo a união de fibras nervosas rompidas e favorecendo a reorganização do tecido lesionado. O processo de regeneração, quando ocorre, é gradual e pode levar meses.

Resultados iniciais e estágio atual

Os testes preliminares apresentaram resultados animadores. Em um grupo de oito pacientes com lesão medular completa — condição com cerca de 10% de probabilidade espontânea de melhora — seis apresentaram algum grau de recuperação de movimento, e um deles voltou a caminhar.

Ainda assim, é fundamental destacar: o medicamento é experimental. Os dados existentes ainda não passaram por todas as etapas tradicionais de validação científica, como revisão por pares ampla e testes clínicos controlados em larga escala.

Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início da Fase 1 do estudo clínico, etapa que avalia principalmente a segurança da substância. Nesta fase, cinco pacientes com lesões recentes na medula espinhal receberão a aplicação direta do composto na área afetada.

Somente após a conclusão bem-sucedida das fases seguintes — que envolvem grupos maiores e análises estatísticas rigorosas — será possível afirmar com segurança se o tratamento é eficaz e viável para uso amplo.

Trajetória acadêmica da pesquisadora

Hoje com 59 anos, Tatiana Coelho de Sampaio construiu toda a sua trajetória acadêmica na UFRJ. Professora da instituição desde 1995, ela realizou sua formação completa — da graduação ao doutorado — em Ciências Biológicas na universidade.

Chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas, dedicou mais de 25 anos ao estudo da laminina e seus impactos na regeneração tecidual. Como ocorre com grande parte da ciência produzida no país, seu trabalho avançou por décadas de forma discreta, sustentado por pesquisa básica sólida e persistência científica.

Nos últimos meses, seu nome ganhou projeção nacional após a divulgação dos resultados envolvendo a polilaminina. A visibilidade trouxe reconhecimento, mas também desafios, como promessas precipitadas e ações judiciais de pacientes que buscam acesso antecipado à substância — prática que envolve riscos e exige cautela.

Desafios e reconhecimento

A trajetória da polilaminina também revela obstáculos estruturais enfrentados pela ciência brasileira. Segundo a pesquisadora, cortes de verbas entre 2015 e 2016 comprometeram a manutenção da patente internacional da substância. A patente nacional, concedida apenas em 2025 após 18 anos de tramitação, terá validade limitada — restando dois anos de exclusividade.

Tatiana relatou ter arcado com recursos próprios para manter temporariamente a proteção da tecnologia, mas não conseguiu evitar a perda internacional. Para ela, o impacto vai além da questão financeira: envolve reconhecimento científico e valorização da pesquisa nacional.

Um possível marco na história da medicina

Embora ainda seja cedo para afirmar que estamos diante de uma revolução definitiva, o estudo coordenado por Tatiana Coelho de Sampaio representa um avanço científico de enorme relevância. Ele reafirma a importância do investimento contínuo em pesquisa básica, da ciência feita nas universidades públicas e da condução ética e rigorosa de ensaios clínicos.

A polilaminina ainda precisa cumprir etapas fundamentais até se tornar um tratamento consolidado. Mas o que já está claro é que a ciência brasileira, quando apoiada e valorizada, tem potencial para protagonizar descobertas capazes de transformar vidas

jornaldamazonia.com

Fotos: Internet / Reprodução das Redes Socias

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