Lula, Flávio Bolsonaro, Augusto Cury e Ronaldo Caiado apresentam propostas que combinam combate ao desmatamento, desenvolvimento econômico e bioeconomia, mas divergem sobre fiscalização, infraestrutura e exploração dos recursos naturais
A Amazônia ocupa espaço relevante nos programas de governo dos quatro candidatos mais bem colocados na pesquisa Datafolha divulgada em 24 de setembro. Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Augusto Cury (Avante) e Ronaldo Caiado (PSD) apresentam propostas para a região que envolvem preservação ambiental, combate a crimes ambientais, geração de renda e desenvolvimento econômico.
Apesar de pontos em comum, os programas adotam estratégias diferentes para enfrentar os principais desafios da Amazônia. As propostas vão desde o fortalecimento da fiscalização e das políticas climáticas até investimentos em infraestrutura, tecnologia e cadeias produtivas ligadas à biodiversidade.
Lula aposta em controle do desmatamento e economia de baixo carbono
O programa de Lula coloca o combate ao desmatamento entre os principais eixos da política ambiental. A proposta estabelece a meta de zerar o desmatamento líquido até 2030 e prevê o fortalecimento das ações de prevenção e combate às queimadas.
O plano também defende a regularização fundiária e a destinação de terras públicas para unidades de conservação, territórios indígenas e quilombolas.
Outro eixo é a chamada economia de baixo carbono. O programa prevê a regulamentação do mercado de carbono e a ampliação de mecanismos de financiamento para atividades de conservação e recuperação ambiental.
A estratégia inclui ainda a busca por recursos internacionais destinados à preservação das florestas tropicais, como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre.
Flávio Bolsonaro prioriza soberania e atividade econômica
No programa de Flávio Bolsonaro, a Amazônia aparece associada principalmente a soberania nacional, segurança e desenvolvimento econômico.
A candidatura propõe ampliar o monitoramento da região com satélites, inteligência artificial e integração de bancos de dados. O objetivo declarado é identificar áreas de desmatamento, queimadas, garimpo ilegal e ocupações irregulares.
O plano estabelece como meta zerar o desmatamento ilegal até 2029 e prevê cooperação com países vizinhos para combater crimes ambientais transfronteiriços.
Ao mesmo tempo, a proposta defende a expansão de atividades econômicas consideradas sustentáveis, como manejo florestal, bioeconomia e pagamento por serviços ambientais.
A infraestrutura também tem papel importante. Entre as propostas está a retomada da Ferrogrão, ferrovia planejada para ligar áreas produtoras de Mato Grosso a portos do Pará. O programa também defende maior agilidade nos processos de licenciamento ambiental.
Augusto Cury propõe tecnologia e bioeconomia
A proposta de Augusto Cury concentra parte de sua agenda amazônica na combinação entre tecnologia, geração de renda e melhoria da infraestrutura das cidades da região.
O programa prevê o chamado Amazônia Viva, voltado ao desenvolvimento econômico de comunidades ribeirinhas e municípios amazônicos.
Entre as atividades citadas estão cadeias de produção de açaí, castanha, óleos naturais, pesca sustentável, artesanato e turismo ecológico.
O plano também propõe investimentos em saneamento, energia limpa e conectividade digital.
Na área ambiental, a candidatura prevê o uso de inteligência artificial, satélites e drones para identificar incêndios e áreas de risco. A ideia é integrar sistemas de monitoramento federais e estaduais.
Outro ponto é a criação de mecanismos de crédito para pequenos empreendedores, cooperativas e negócios ligados à economia sustentável.
Caiado combina produção, fiscalização e mercado de carbono
Ronaldo Caiado apresenta uma proposta que procura conciliar produção agropecuária, conservação ambiental e desenvolvimento da bioeconomia.
O programa prevê o combate ao desmatamento ilegal, à grilagem e ao garimpo clandestino, além da ampliação de instrumentos de regularização ambiental.
Entre as medidas está a implantação de um mercado regulado de carbono e a utilização de pagamentos por serviços ambientais como forma de incentivar a conservação.
O programa também prevê ações específicas contra incêndios florestais, com brigadas, equipamentos, sistemas de alerta e manejo do fogo.
Na economia, a proposta aposta na transformação de recursos da biodiversidade em produtos de maior valor agregado. O programa cita setores como medicamentos, cosméticos, alimentos, óleos, fibras, sementes, madeira manejada e turismo de natureza.
Onde os programas se aproximam — e onde divergem
Os quatro candidatos incluem o combate ao desmatamento ilegal e às queimadas entre suas propostas para a Amazônia. Também aparecem, em diferentes formatos, o uso de tecnologia para monitoramento ambiental e a tentativa de gerar renda a partir da conservação e da biodiversidade.
As diferenças estão principalmente nos instrumentos escolhidos.
Lula dá maior destaque à política climática, à proteção territorial, à redução do desmatamento e à captação de recursos para conservação.
Flávio Bolsonaro enfatiza soberania, segurança, fiscalização e desenvolvimento de infraestrutura e atividades econômicas.
Augusto Cury concentra sua proposta em tecnologia, infraestrutura regional e geração de renda por meio da bioeconomia.
Ronaldo Caiado combina fiscalização ambiental, produção agropecuária, mercado de carbono e agregação de valor aos produtos da biodiversidade.
O que está em jogo para a Amazônia
A diferença entre os programas ultrapassa a questão ambiental. As propostas também envolvem temas como infraestrutura, produção rural, regularização fundiária, segurança, mineração, energia, direitos territoriais e geração de empregos.
Para a população dos estados amazônicos, a execução dessas propostas dependeria, além da eleição presidencial, de orçamento público, regulamentação, capacidade de fiscalização e articulação entre União, estados, municípios e comunidades locais.
A comparação dos programas mostra, portanto, diferentes caminhos para tratar a relação entre preservação da floresta e desenvolvimento econômico. A forma como cada candidatura pretende transformar essas propostas em políticas públicas é um dos pontos centrais da agenda amazônica na eleição presidencial.
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