A mutilação dos corpos femininos pela guerra de gênero na sociedade

A ameaça, o terror e a tirania não escolhem lugar: escolhem corpos femininos

A ameaça, o terror e a tirania não escolhem lugar: escolhem corpos femininos. É sempre um. Não todos, mas sempre um homem, um macho. Um voraz predador da vida na sociedade, no meio das humanidades.

​Estamos vivendo, infelizmente, mais um século de guerras. Uma delas, não tão silenciosa, pois ao contrário dos armamentos convencionais, traz a rigidez do submundo imundo do sistema patriarcal — que há tempos resguarda um inconformismo masculino maculado, sob o poder da força e da dominação na relação patrimonial dos corpos femininos.

Esta guerra, que explode, rasga, mutila e mata em seu modus operandi, opera sob requintes de crueldade, como se estivéssemos em um campo de concentração ou em uma zona de combate, trata-se de uma guerra de gênero.

​As armas desse conflito com efeitos nefastos sobre a vida de mulheres e meninas, irrompem em corpos vivos, com nomes, identidades, endereços, idades, cores e famílias. Os crimes baseados em gênero não ficam apenas nas prateleiras dos IMLs, nem somente nos arquivos policiais para fins estatísticos.

Tais crimes, além de circularem com narrativas pobres — para não dizer vergonhosas e infundadas — nas páginas midiáticas, entram em nossas casas e habitam em nossa ânima, perfurando nossos corpos como bombas, todos os dias.

​A cena que enxergamos e tocamos não pertence a um roteiro de filme; não é “mais uma história”. É, sobretudo, a realidade presente — muito presente — na ausência de tantas mães, avós, esposas, namoradas, irmãs, tias e sobrinhas. É a vida real de mulheres que se tornaram apenas lembranças, angústias e choros pela memória da dor.

​É a vida real daquela que, por vezes, creditou ao seu “amado”, “protetor” ou “provedor” o seu único bem: a vida. Uma existência que foi anulada, sufocada e silenciada pela autoridade de um sistema necrófago, nutrido pelo ódio masculino.

Ao eliminar sua “presa”, o agressor garante que sua hegemonia não sofrerá ameaças, permitindo que ele siga sobrevivendo em sua condição voraz de dominação.

​Bourdieu diria que a violência masculina atua, primeiro, com sinais e gestos simbólicos; depois, materializa-se no estado físico da brutalidade, seguindo universalmente naturalizada por uma hierarquia social.

Enquanto o Estado brasileiro e a sociedade não criarem caminhos curtos de prevenção e proteção, essa guerra continuará avançando rumo à extinção da humanidade. O mais absurdo é que temos apenas um lado predador: um agressor e um assassino contra as mesmas vítimas recorrentes.

​A dor que isola, silencia e abafa sussurros e gritos cruza fronteiras e recai sobre nós, a voz de todas. Somos a única via ou veia dessa vida que, pelo fio da navalha, calou-se no mundo e ficou sem voz. Sem vida.

​Texto: Benedita Nascimento

Revisão e contribuições

Evelyn Morales

Soniamar Salin

Imagem: cj.estrategia.com/portal/feminicidio

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